De tempos em tempos faremos entrevistas com os artistas que compõem a inconstancia, hoje começaremos com a Amanda Grazini.
Desde quando vimos pela promeira vez suas ilustrações no seu
flickr, nos identificamos e ficamos atentos à cada novo trabalho. E felizmente hoje, contamos com suas ilustrações estampadas nas camisetas da inconstancia e em muitos novos produtos que ainda virão. Fiquem atentos à seu
blog e a essa exclusiva entrevista:
Quando, como e porque você começou a desenhar, e considerar-se uma artista?Quando era pequena já começava a desenhar, sempre desenhei. Tem gente que pira com música, ou com qualquer outra coisa, eu já pirei no desenho. Ficava horas trancada no quarto treinando, até conseguir fazer algo bacana... Também fiz um curso de desenho e pintura e ilustração na
Quanta, e foi o que me ajudou um monte a evoluir, e ainda tenho coisa pra caramba pra aprender, isso é algo que nunca termina...temos que estar sempre aprendendo. Mas ai me considerar uma artista? Não sei dizer, se me considero, sei lá eu só faço minha arte - vamos dizer assim - porque eu me sinto bem, porque é algo natural.
Moras em São Paulo, que é um lugar efervescente de atividades culturais e artísticas. De que maneira isso tem afetado teus trabalhos, ou tua trajetória?Isso afeta muito meus trabalhos sim. Só o fato de eu poder conhecer várias pessoas da área, poder estar em contato no meu dia a dia, com o povo lá da Quanta por exemplo, o povo que eu trabalho também, vários amigos que fiz, todo esse ambiente e essa convivência com outros artistas é muito legal pro meu trabalhoe pra meu aprendizado como artista. E fora em São Paulo que você sai, e tem um monte de coisas acontecendo, internet, arte de rua, manifestações artísticas e etc.
Trabalhas como ilustradora. Mas não sei dizer se há diferenças entre teu trabalho pessoal e comercial. Como você lida com esse equilíbrio?Então, eu trabalho numa editora de livros didáticos, então tenho que mudar um pouco em questão disso, fazer outro estilo mesmo. Tem que saber dividir, não tem que entrar em crise, sabe? Daí eu vou fazendo paralelo ao trabalho e em casa vou treinando esse estilo mais autoral, mas sem crise e sem pretensão, quem gostar gostou, sou bem desencanada em relação a isso. Não entro em crise de identidade artística, porque tenho que trabalhar né, mas o dia que rolar de eu trabalhar com um estilo mais meu ficarei bem contente. Porque tem gente que confunde desenho, ilustração com glamour – não tem glamour nenhum, é trampo pra caramba, normalmente quando se está começando.
Ser ilustrador não é um trabalho glamuroso, é uma profissão como outra qualquer na minha opinião. É legal fazer seu trabalho, aprimorar-se e sentir-se satisfeito com o que faz. Acho legal quando acontece de uma pessoa se identificar com o meu trabalho. Assim como tem artistas que me identifico, que me inspiram. É esse o tipo de reconhecimento que gosto.
Você também mudou tua assinatura, da época do blog tiptaptoop para o de hoje, isso há dois anos? O que mudou desde aquele tempo? Mudei minha assinatura porque, não sei se você conhece o Octávio Cariello, ele é professor de desenho, lá da
Quanta. E eu fazia aquela rubrica rabiscada e achava muito lindo e maravilhoso, aí cheguei um dia e mostrei um desenho pra ele, aí ele disse
“pô, o desenho tá ducaramba, mas essa assinatura hein?! Não dá pra saber quem é você – (daquele jeito dele) é mais fácil você escrever seu nome, né, pro povo saber quem é você, porque você não é a ilustradora-super-conhecida, pra todo mundo reconhecer de cara a sua assinatura ou que esse é um desenho seu”. Aí foi por isso que mudei, não foi nem por questão de estilo ou de mudança na minha cabeça, foi por causa do toque dele mesmo.
Em teu trabalho tem uma forte presença de personagens e especialmente femininas e elementos da cultura japonesa, o que isso significa pra você?Quando faço minhas pinturas e ilustrações, quero passar um ar meio misterioso mas ao mesmo tempo algo suave e simples, eu curto bastante mangá – não sou fanática, mas gosto do traço. Gosto da cultura japonesa, da arte, acho muito bonito. As sutilezas, a simplicidade, acho do caramba. Se um dia conseguir chegar, em algo parecido, aí eu vou ficar satisfeita, mas daí vou ter que nascer de novo e virar japonesa, mas beleza (todo mundo já me confunde com japonesa mesmo ,devido aos meus pequenos olhinhos!).
Nota-se uma alta preocupação com o vestuário, tanto que algumas vezes você trabalha a textura do tecido junto como a ilustração, colagens, como se dá essa ilustração mais experimental?Fico reparando nas coisas quando saio na rua, gosto de moda, gosto de roupinha bonitinha. Aí sempre vi trabalhos do
titi freak, que sou muito fã, aí vejo o modo com que ele trabalha, com padrões, isso me inspirou. E reparo também sempre nos padrões legais que vejo por aí e tento aplicar.
Também tem trabalhado em suportes encontrados na rua, pedaços de ventilador, madeiras, porta de guarda-roupa,É muito legal, é que a gente estava acostumado a só usar papel A4 – falo pelo povo da Quanta, o
Davi Calil, ele foi meu professor de ilustração, e o
Amílcar que é meu namorado, e também é ilustrador. E a gente conversava isso, que ficavamos só no papel e às vezes é até difícil ir pra um papel maior, sabe? E também é outro tipo de suporte, com mais liberdade. Quanto mais ampliar melhor, mas o fato de ser lixo, é melhor ainda, porque você não gasta dinheiro e dá pra testar a vontade.
E depois você volta e devolve para a rua?Por enquanto ta tudo amontoado aqui em casa, tem alguns na casa do Davi, outros lá na Quanta, mas já pensamos em pegar do lixo, pintar e colocar de volta de onde tiramos e bater umas fotos, pra ficar um contraste legal. Mas a gente ainda não colocou em prática isso.
Você tem uma agenda que ganhou no bistecão ilustrado, em que faz desenhos, sketches – e vários deles também coloridos, que são os meus favoritos. A textura do papel, a maneira de cada desenho interage com os e os detalhes da própria agenda, dão um tom muito especial para o conjunto todo.A Flávia Sakai e a Erika Kobayashi produzem esses cadernos (elas são as moderadoras dos
“Moyashis” que é uma lista de discussão que eu participo, que fala de arte japonesa, cultura, fazemos stickers). Eu estava lá no bistecão, e rolou um sorteio dos cadernos. Eles são muito bacanas, pequenos, você leva pra tudo quanto é lugar.
E também tem o
Kako, com quem trabalhei um tempo, que eu sempre via os cadernos dele e ficava babando, aí ele foi me dando uns toques, por exemplo, você faz um desenho, depois você não gosta, passa o preto por cima e faz outro sabe? Desapego total, é experimentação mesmo: faça colagens, passe liquidpaper, tudo, e acabam saindo coisas legais. É bom pra treinar, ter umas idéias.
Como é o teu processo criativo? No teu caso parece mais orgânico, mas talvez o processo seja também bem digital. Em todo caso, aparece a tua inclinação traços bem marcantes e ágeis, em contraposição de detalhes bem meticulosos.Não sei explicar direito, fico pensando na idéia, faço um esboço bem rápido – que nem é muito apresentável, porque não defendo nada, já vou pensando no que vou finalizar depois.
Quando é pintura na madeira, eu começo traçando bem soltão com um um giz pastel seco, às vezes até passo um pouco de água no pincel e vou dando umas pinceladas pra definir mais, como vai ser o traço, vou dando o peso. Normalmente também, já penso na cor que vou usar, já fico matutando, só se eu quiser experimentar mesmo, fazer uma coisa mais experimental, nem penso, vou fazendo na hora. Mas já penso nas combinações, como agora, que tô fazendo muito com cores chapadas. Mas não posso dizer que esse é o meu jeito de trabalhar, porque sempre quero experimentar.
E quando faço digital , faço arte-final, faço a cor no photoshop... E escuto música!
Em que tem trabalhado ultimamente?Trabalho das 9h às 19h no estúdio e às vezes pego freelas. E as vezes rolam uns eventos com a Quanta, gosto pra caramba.
Sempre aviso lá no
blog quando está pra rolar algum desses eventos.
Tem algum futuro projeto interessante, que você esteja participando, e que possa comentar agora?Tem um monte de projetos, mas não falo muito porque às vezes não rola. Talvez aquele lance das fotos dos trabalhos com o suporte de lixo...
E algum trabalho, que gostarias de fazer, mas ainda não te propuseram?Uma exposição conjunta ou solo, mas ainda não tô preparada, preciso ter mais material, ou um álbum / publicação com as pinturas.
e de colaboração?Sempre que posso participo da
IdeaFixa e também na
Revista Coletiva, na edição de jogos tradicionais até rolou uma expo com os participantes, foi bem bacana!
E a deixa: tem alguma recomendação de artista, ou site, para que nós pudéssemos conhecer também? No momento estou de olho na
Audrey Kawasaki ,
Ashley Wood,
Jen Wang, e a
Vera .